Ronaldo Marinho

Literatura Contemporânea!

Textos

Prazeres tenebrosos
Desça o calção; pedi com voz firme, empostada. Após correr a língua até a ponta do próprio queixo, respondeu-me:

- A mim ninguém impõe ordens. O que te capacita com tal ousadia?!

Descamisado, esbravejou, ocultando as mãos nos bolsos da vestimenta branca. Esta evidenciava a silhueta do órgão genital. Pigarreei, ao identificar em sua fala, irritação extrema. Favorecido pelo facho luminoso, vindo não sei de onde, percebi que as veias, traçando os bíceps, perfaziam o diâmetro de meu dedo mínimo. Recordou-me o Paulinho Supino, um colega dos tempos do ensino médio.

Os leitores que acompanham meus textos sabem que diante de uma situação tensa não consigo reter o fluxo da urina. Senti a bexiga pesando. Contudo, o xixi, apenas empapou levemente a cueca. Dois inspetores de cemitério adentraram por uma janela sobrevoando a garagem abandonada. Desconheço como cheguei ao ambiente.

Assumo, ao disparar a ordem desavergonhada faltou-me prudência. Aquela constituía a segunda oportunidade que eu me deparava com a figura. No primeiro encontro o cidadão emitiu ao vácuo um comentário desconexo. Enquanto o elevador panorâmico cumpria conosco dois andares.

Sendo presa urbana, carrego em mim a urgência do dia a dia contemporâneo associada ao fator idade. Estou próximo a completar trinta e cinco anos de vida, ou seja, a consciência da preciosidade de cada minuto é mais nítida. Comparo a juventude a uma crioula careca, nua e ensaboada desenvolvendo passos largos, em sentido oposto a mim. A perseguição é quase inglória. Assim, justifico a escassez de firulas e preliminares no instante de investida ou galanteio.

Apreensivo, franzi a testa e girei o tronco na direção da claridade. Num berro, o caboclo identificou-se como Ministro das Trevas. Desapareceu em meio à tradicional fumaça rosa. Ali concretizou a última vez que deparamos frente a frente. Agora, leitor, irei confidenciar um fato recorrente, após este episódio. Nas sextas-feiras, um urubu em rasante, lança uma flor roxa no meu quintal, com um bilhete: “faça o chá”. Solenemente recolho. Preparo a infusão, e bebo antes de dormir. Ah, quanto aos sonhos que me veem, redigirei outras narrativas para revelar os detalhes das noites de prazeres tenebrosos.
Ronaldo Marinho
Enviado por Ronaldo Marinho em 17/10/2019
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